Origem e progresso das universidades

Origem e progresso das universidades

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descrição

Esta obra, na ocasião oportuna da fundação controversa de uma Universidade Católica em Dublin, trata da forma como surgiram as Universidades, a partir de escolas, colégios, seminários ou comunidades monásticas que já vinham durando séculos, um passado que é muitas vezes esquecido. O autor busca recordar-nos, com isso, que a sua origem é religiosa, e que por isso a recente fundação de uma Universidade Católica não é impossível, como pensavam muitos. A obra surgiu originalmente em 1854 nas colunas de um periódico católico, e em 1856 foi publicada com o título de "Ofício e trabalho das Universidades". Nesta edição, Newman alterou o título para adaptá-lo ao conteúdo.

ficha técnica

ISBN: 978-85-5638-079-1
Páginas: 252
Formato: 14 x 21 cm
Peso: 0,31 kg
Acabamento: Brochura
Idioma: Português
CAPÍTULO 2
 
O que é uma universidade?

Se me fosse pedido para descrever tão brevemente e popu­larmente quanto eu pudesse, o que seria uma Universidade, eu delinearia minha resposta a partir de sua designação antiga como um StudiumGenerale, ou “Escola de Aprendizado Uni­versal”[1]. Esta descrição implica a reunião de desconhecidos de todas as partes em um só lugar. De todas as partes, se não, como você encontrará professores e estudantes para cada ramo do conhecimento? Em um só lugar, se não, como poderia existir uma escola afinal? Consequentemente, na sua forma simples e elementar, ela é uma escola de todo o tipo de conhecimento, formada por professores e aprendizes de todos os quadrantes. Muitos são os requisitos para completar e satisfazer a ideia con­tida nesta descrição, mas assim parece ser uma Universidade em essência, um local para a comunicação e circulação do pen­samento por meio do contato pessoal, por uma ampla região.

Não há nada de artificial ou não razoável na ideia assim a nós apresentada, e se isso é uma Universidade, então a Uni­versidade apenas diz respeito a uma necessidade de nossa natureza, sendo apenas um espécime em um meio em particu­lar, dos muitos que poderiam ser mencionados dentre o sorti­mento para tal necessidade. A educação mútua, numa ampla acepção do termo, é uma das maiores e incessantes ocupações da sociedade, e é parcialmente realizada com um objetivo em particular, porém nem sempre. Uma geração sucede à outra e a geração existente está sempre reagindo sobre si mesma por meio de seus membros individuais. Neste processo, nem preciso dizer, os livros, a literascripta, são um instrumento especial. E isto é verdade, destacadamente em nossa época. Considerando o prodigioso poder da imprensa, e como ela está desenvolvida atualmente, numa contínua publicação de periódicos, panfle­tos, trabalhos em série e literatura, nós devemos admitir que nunca existiu um momento que garantiu de forma mais razoá­vel que se deixasse de lado outros meios de informação e ins­trução. O que desejaríamos mais, você diria, para a educação intelectual do homem como um todo, e para cada homem, do que a disseminação tão exuberante, diversificada e persistente de todos os tipos de conhecimento? Por quê, você perguntaria, necessitamos ir em direção ao conhecimento quando o conhe­cimento vem até nós?

A sibila escrevia suas profecias sobre as folhas da floresta e as perdia[2]. Mas hoje, tal descuidada profusão pode ser sensata­mente perdoada, pois podemos desfrutá-la sem medo de per­dê-la, como consequência da quase fabulosa fecundidade do instrumento que esta última época inventou. Nós temos ser­mões nas pedras e livros nas águas correntes[3], trabalhos maio­res e mais completos do que àqueles que deram imortalidade aos antigos, publicados diariamente e levados aos confins da Terra à velocidade de centenas de milhas por dia. Enxames de livretos forram nossas poltronas e polvilham nossas ruas, e até os tijolos das paredes em nossa cidade proclamam sabedoria, informando-nos com seus cartazes onde podemos adquiri-la de forma rápida e barata.

Eu admito isso tudo e bem mais, esta é certamente nossa educação popular, e seus efeitos são notáveis. Mesmo assim, mesmo nesta época, sempre que as pessoas estão pensando seriamente em obter, o que na linguagem do comércio é cha­mado de “uma boa oferta”, quando buscam por algo único, algo refinado, realmente brilhante, realmente grande, algo seleto, elas vão a outro mercado. As pessoas utilizam-se, de uma forma ou outra, do método rival, o antigo método da instrução oral, da comunicação presente homem a homem, de professores em vez do estudo, da influência pessoal de um mestre e a humilde iniciação de um discípulo e, consequentemente, dos grandes centros de peregrinação e afluência, que tal método educacio­nal necessariamente envolve. Isto, penso eu, se aplicaria bem em todos aqueles segmentos ou aspectos da sociedade, os quais possuam um interesse suficiente para unir os homens entre si, ou constituir aquilo que é chamado “um mundo”. Isso se aplica no mundo político, na alta sociedade e no mundo religioso, e se aplica também nos mundos científico e literário.

Se as ações dos homens podem ser tomadas como algum teste de suas convicções, então temos razão ao dizer que: o domínio e o benefício inestimável da literascriptaé o de ser um registro da verdade, uma autoridade de apelação e tam­bém um instrumento de ensino nas mãos do professor; mas, se desejamos ser precisa e inteiramente equipados em qual­quer complexo e diversificado ramo do conhecimento, deve­mos consultar o homem real e ouvir sua voz viva. Não tenho o compromisso de investigar as causas disso, e qualquer coisa que eu pudesse dizer, estou certo, resultaria em uma análise limitada. Talvez possamos sugerir que nenhum livro pode alcançar as inumeráveis questões que são possíveis para um assunto extenso, ou consiga dar conta das dificuldades que são grandemente sentidas por cada leitor em particular. Ou, novamente, que nenhum livro possa transmitir o espírito e as delicadas peculiaridades de seu tema com aquela rapidez e segurança como a alcançada pela empatia entre duas almas, pelo olhar, o gestual, a entonação e a conduta, das expressões casuais saídas de improviso e das reviravoltas espontâneas da conversação pessoal. Mas eu já estou me demorando muito em uma parte não essencial da minha principal preocupação. Qualquer que seja a causa, o fato é inegável. Os princípios gerais de qualquer objeto de estudo podem ser aprendidos por livros, em casa, mas os detalhes, as tintas, o tom, o ar, a vida que o faz viver em nós, é preciso adquirir daqueles nos quais ele já vive. Você deve seguir o exemplo do estudante de fran­cês ou alemão, o qual não está satisfeito com sua gramática, e ir a Paris ou Dresden, ou ter como exemplo o jovem artista, o qual aspira visitar os grandes Mestres em Florença e Roma. Até descobrirmos algum daguerreótipo[4] intelectual, que capte o andamento do pensamento e a forma, contornos e carac­terísticas da verdade, tão completa e minuciosamente, como o instrumento óptico reproduz o objeto sensível, devemos ir aos mestres da sabedoria para aprender sabedoria, devemos nos dirigir à fonte e dela beber. Parte dessa sabedoria pode ir da fonte aos confins da Terra através dos livros, mas sua ple­nitude está em apenas um local. É em tais assembleias e con­gregações de intelecto que os livros, obras-primas do gênio humano, são escritos, ou ao menos originados.

O princípio em que venho insistindo é tão óbvio e os casos em questão tão claros, que eu deveria achar tedioso continuar com o assunto, exceto que um ou dois esclarecimentos podem servir para explicar o tema à minha maneira, o que não faria justiça à doutrina a qual pretenderia aplicar.

Por exemplo, os modos polidos e a conduta distinta, tão difí­ceis de se alcançar, e que quando alcançados são estritamente pessoais, muito admirados na sociedade, da própria sociedade são adquiridos. Tudo o que vai formar um cavalheiro, como a presença, porte, trato, gestos, voz, serenidade, o domínio de si, a cortesia, a arte da conversação, o talento de não ofender, os princípios elevados, a sutileza no pensar, a felicidade na expres­são, o bom-gosto e a adequação, a sinceridade e consideração, a generosidade, a tolerância e o desprendimento. Algumas dessas qualidades vêm da natureza, algumas se encontram em qual­quer classe social, algumas são normas diretas do Cristianismo, mas o conjunto total de todas elas, consolidadas na unidade de um caráter individual, esperamos nós que possam ser apren­didas pelos livros? Não são elas necessariamente adquiridas, onde elas podem ser encontradas, ou seja, na alta sociedade? A própria natureza do caso nos leva a assim dizer. Você não pode esgrimir sem um adversário nem desafiar todos os presentes numa arguição antes de ter defendido sua tese[5]. De maneira semelhante, é razoável pensar que não se aprende a conver­sar, até que se tenha pessoas para conversar. Não se pode per­der o acanhamento natural, a inabilidade ou a sisudez, ou outra imperfeição recorrente, até que se passe um tempo em alguma escola de boas-maneiras. Bem, e não é isso o que ocorre na ver­dade? A metrópole, a corte, as grandes mansões, são os cen­tros aos quais em determinadas épocas, o campo aflui, como a santuários de refinamento e bom gosto, e então, no tempo certo, o campo volta para casa novamente, enriquecido com uma parte das conquistas sociais, as quais foram despertadas e elevadas entre aqueles mesmos que amavelmente as distri­buíram aos visitantes. Não estamos aptos a conceber como o cavalheirismo pode, de outra maneira, ser mantido. E ele man­têm-se deste exato modo.

E agora um segundo exemplo: e aqui também irei falar sem experiência pessoal do tema que apresento. Admito não ter tido assento no Parlamento, assim como não integrar o beau monde[6]. Ainda assim, eu só posso pensar que a carreira polí­tica, bem como a alta-educação, é aprendida, não pelos livros, mas em alguns centros de educação. Se não for presunção dizer, o Parlamento coloca o homem inteligente no compasso com a política e os negócios de Estado de uma maneira surpreen­dente a ele mesmo. Um membro da legislatura, se for razoa­velmente observador, começa a ver as coisas com novos olhos, mesmo que seus pontos de vista não mudem. Agora, as pala­vras e as ideias têm uma realidade que não possuíam antes. Ele ouve uma vasta quantidade de discursos públicos e con­versas privadas, que nunca são impressas. A relação entre as medidas e os acontecimentos, as ações dos partidos e as figu­ras de amigos e inimigos, são reveladas ao homem que está no meio disso com uma nitidez que nem a mais minuciosa leitura dos jornais conseguiria transmitir. É o acesso às nascentes da sabedoria e experiência políticas, é o encontro diário, de uma forma ou outra, com a multidão que a elas acorrem, é a fami­liaridade com os negócios, é o acesso às contribuições dos fatos e da opinião, amarradas à muitas testemunhas vindas de mui­tos lugares, que faz isso a esse homem. Entretanto, não preciso de explicação para um fato, o qual é suficiente apenas citar: o fato que as Casas do Parlamento e a atmosfera que as cercam são um tipo de Universidade da Política.

Considerando o mundo da ciência, encontramos um notável exemplo do princípio que estou explicando nas reuniões perió­dicas promovidas para o seu progresso. Essas reuniões surgi­ram no curso dos últimos vinte anos, como àquelas da British Association[7].Tais encontros, à primeira vista, pareceriam sim­plesmente absurdos para muitos. Mais do que todas as maté­rias de estudo, a Ciência é transmitida, comunicada pelos livros ou pelo ensino particular. Os experimentos e investigações são conduzidas no silêncio e as descobertas feitas na solidão. O que filósofos tem a ver com celebrações festivas e solenidades lau­datórias, e qual a relação disso com verdades físicas e matemá­ticas? Dando maior atenção ao assunto, podemos ver que nem mesmo o pensamento científico pode dispensar as sugestões, a instrução, o estímulo, a empatia e o encontro com a humani­dade, propiciado por essas reuniões. Uma época agradável do ano é escolhida, com dias longos e céu brilhante, quando a terra sorri e toda a natureza rejubila; uma cidade é escolhida por sua tradição ou opulência moderna, onde os prédios são espaçosos e a hospitalidade calorosa. A novidade do lugar e da circuns­tância, o entusiasmo com os desconhecidos e a descontração com as caras conhecidas, a majestade da posição ou da genia­lidade, a amabilidade de homens satisfeitos consigo e com os outros, os espíritos elevados, a circulação dos pensamentos, a curiosidade; as sessões matinais, os exercícios ao ar livre, a mesa repleta e merecida, a alegria elegante, as rodas de conversa ao final do dia; a palestra brilhante, as discussões ou desencontros entre homens notáveis, as narrativas do progresso científico, das expectativas, das decepções, conflitos e sucessos e as excep­cionais elogias. Tudo isso e os demais elementos da celebração anual são considerados relevantes e substanciais para o avanço do conhecimento, de tal maneira, que não podem ser substituí­dos. Claro que são eventos ocasionais, relacionados ao decreto de fundação, início ou comemoração anuais da Universidade, não sendo este seu estado cotidiano, mas que pertencem à sua natureza, e eu acredito em sua utilidade. Estes eventos propor­cionam uma certa vitalidade e, podemos dizer, a comunicação corpo-a-corpo do conhecimento científico, o intercâmbio geral de ideias, a comparação e ajuste da ciência com a própria ciên­cia, uma abertura do espírito, tanto social quanto intelectual, um amor ardente pelo tipo de estudo em particular escolhido pelo indivíduo, e uma nobre devoção a ele.

Tais encontros, repito, são periódicos, e apenas parcialmente representam a ideia de Universidade. A agitação e o turbilhão que acompanham esses eventos não estão em consonância com a ordem e a seriedade da educação intelectual sincera. Nós aspiramos a meios de instrução que não envolvam interrup­ções em nossos hábitos cotidianos, e nem precisamos procurar muito, pois o curso natural dos fatos nos traz o que queremos, enquanto debatemos sobre eles. Em todo grande país, quer dese­jemos ou não, a metrópole, por si só, torna-se uma espécie de Universidade. Como a principal cidade é o assento da corte, da alta sociedade, da política e da lei, da mesma maneira, é claro, é também o assento das letras. Atualmente e desde muitos anos, Londres e Paris são Universidades, em realidade e por funcio­namento, embora a famosa Universidade de Paris não esteja mais lá e em Londres; exceto como conselho de administração, mal há uma Universidade. Os jornais, as revistas, os periódicos de todo o tipo, as editoras, as bibliotecas, museus e academias aí existentes, as sociedades científicas e educativas, investem a cidade com as funções de uma Universidade. A atmosfera de intelecto, que em uma época passada pairou sobre Oxford, Bolonha ou Salamanca, moveu-se, com a mudança dos tempos, para o centro do governo. Naquela direção dirigem-se jovens de todas as partes, os estudantes de direito, medicina e das artes, e os employése attachés da literatura. Lá vivem de acordo com as circunstâncias, e estão satisfeitos com seu lar temporário, já que lá encontram tudo o que lhes foi prometido. Não apren­deram nenhuma religião em particular, mas bem aprenderam sua profissão pessoal. Além disso, tornaram-se familiarizadoscom os modos, hábitos e opiniões de sua morada temporá­ria e fizeram sua parte para manter as tradições do local. Não podemos falar que não temos Universidades Virtuais, tal é a própria metrópole. A questão é, se a educação procurada e apli­cada deveria ser baseada em princípios, formada sob regras e dirigida aos mais altos fins ou deixada à sucessão aleatória de mestres e escolas, um após o outro, com um melancólico des­perdício de intelecto e um alto risco à verdade.

O ensino religioso proporciona um exemplo de nosso tema até certo ponto. Ele não se assenta só nos centros do mundo, sendo isso impossível pela sua natureza. Ele propõe-se a mui­tos, não a poucos. Seu tema é a verdade necessária para nós, não a verdade obscura e rara. Ele concorda em princípio com a Universidade, pois seu grande instrumento ou órgão sempre foi aquele prescrito pela natureza em todo o tipo de educação, a presença pessoal de um professor, ou, em linguagem teológica, Tradição Oral. É a voz viva, a forma que respira, o semblante expressivo, a que prega e catequiza. A verdade, um espírito múltiplo, sutil e invisível, é derramada na mente do estudioso em seus olhos e ouvidos, através de seus afetos, imaginação e razão. É derramada em sua mente e ali selada perpetuamente, através da sua proposição e repetição, pelo questionamento repetido, pela correção e explicação, pelo avanço e pela volta aos princípios, por todos esses meios, enfim, que estão implíci­tos no verbo “catequizar”. Nos primeiros tempos, era um traba­lho longo, meses, algumas vezes anos eram devotados à árdua tarefa de demover da mente do Cristão incipiente os erros do paganismo e moldá-la na fé Cristã. As Escrituras estavam dis­poníveis para o estudo daqueles que podiam utilizar-se dela, mas Santo Irineu não hesitava em falar de povos inteiros que se converteram ao Cristianismo sem sequer poder lê-las. Não ser capaz de ler ou escrever, naqueles tempos, não era evidência de falta de conhecimento: os anacoretas do deserto eram, nesse sentido, iletrados. Mesmo o grande Santo Antão do Deserto, embora não fosse homem de letras, era páreo equivalente para os filósofos que vinham para testá-lo. Dídimo, o grande teólogo da Igreja de Alexandria, era cego. A antiga disciplina chamada Disciplina Arcanienvolvia o mesmo princípio. As doutrinas mais sagradas da Revelação não eram confiadas aos livros, mas difundidas pela sucessiva tradição. Os ensinamentos sobre a Santíssima Trindade e a Eucaristia foram dessa maneira trans­mitidos por centenas de anos, e quando então foram escritos, renderam muitos volumes, que não esgotaram o assunto.

Entretanto, a título de ilustração eu disse mais que o neces­sário. Finalizo como comecei: a Universidade é um local de encontro, para onde os estudantes confluem vindos de todos os lugares e para todo tipo de conhecimento. Não se pode ter o melhor de tudo em todo lugar, deve-se ir a uma grande cidade ou loja para isso. Lá você tem todas as produções seleciona­das da natureza e da arte, todas juntas, cada uma em seu pró­prio lugar. Todas as riquezas da terra são transportadas para lá, onde existem os melhores mercados e existem os melhores tra­balhadores. É o centro do comércio, a suprema corte da moda, o juiz de talentos rivais, e o padrão de coisas raras e preciosas. É o lugar para ver galerias com obras de primeira qualidade e para ouvir maravilhosas vozes e intérpretes de habilidade trans­cendente. É o lugar para grandes pregadores, grandes oradores, dos nobres e dos grandes estadistas. Na natureza das coisas, a grandeza e unidade andam juntas, e a excelência implica em um centro. E tal, pela terceira ou quarta vez, é uma Universidade.

Espero não estar fatigando o leitor ao repetir isso. Lá é o lugar onde mil escolas fazem contribuições, onde o intelecto pode seguramente viajar e especular, certo de encontrar seu igual em alguma atividade rival, e seu juiz no tribunal da ver­dade. É um lugar onde a investigação incentivada, e as desco­bertas verificadas e aperfeiçoadas, a precipitação faz-se inócua, e o erro é exposto, pelo embate de intelecto contra intelecto e conhecimento contra conhecimento. É o lugar onde o profes­sor se torna eloquente, e é um missionário e pregador, exibindo sua ciência em sua forma mais completa e bem-sucedida, colo­cando-a adiante com o fervor do entusiasmo, e estimulando o seu amor a ela nos corações de seus ouvintes. É o lugar onde o catequista faz boa a terra por onde passa, trilhando o dia a dia na verdade para a memória preparada, e inculcando-a na razão que se expande. É um lugar que ganha a admiração do jovem pela sua fama, inflama as afeições da meia-idade por sua beleza, e une a fidelidade do velho pelas suas interrelações. É um lugar de sabedoria, uma luz do mundo, um guia da fé, é a Alma Materda nova geração. É isso e muito mais, e exige uma mente e mãos melhores que as minhas para bem descrevê-la.

Tal é uma Universidade em sua ideia e propósito, como em boa medida tem até agora sido de fato. Será sempre assim? Estamos neste caminho com o poder da Cruz, sob a proteção da Santíssima Virgem e em nome de São Patrício[8].
 

[1]O termo StudiumGenerale, remonta do início do século XIII, e era um título, não oficial, dado às mais prestigiosas e antigas Universidades, para onde acorriam alunos de todas as partes, e onde seus professores eram grandes mestres em suas áreas.
[2]Sibilas eram profetisas na mitologia greco-romana. A Sibila de Cumas, colônia grega na Península Itálica, segundo Virgílio, na Eneida, escrevia suas profecias em folhas de carvalho e as empilhava na entrada de sua caverna, onde eram levadas pelo vento.
[3]Referência ao 2º Ato, cena 1, da comédia de Shakespeare “As youlike it” (Como gostais): “Andthisourlife, exemptfrompublichaunt,/Findstongues in trees, books in therunningbrooks,/ Sermons in stones, andgood in everything.”
[4]Primeiro dispositivo óptico fotográfico disponibilizado e comercializado; inventado por Louis Daguerre em 1839.
[5]O autor refere-se à prática escolástica, em que, na apresentação de uma tese nas universidades, ocorria um debate ou arguição da tese (dis¬putatio) por todos os que acorressem à defesa.
[6]A alta sociedade que o autor referiu-se no primeiro exemplo.
[7]British Science Association, fundada em 1831 com o nome de British Association for theAdvancementof Science (Associação Britânica para o Avanço da Ciência).
[8]São Patrício, missionário e bispo da Irlanda no século V, é o Santo Padroeiro deste país, no qual o Cardeal Newman estava erguendo a Uni¬versidade Católica.