Antes de qualquer queda mais séria, antes de um vício se instalar, quase sempre vem uma sequência silenciosa de pensamentos que a gente aceita, alimenta, justifica. É aí que o livro A arte do bom combate, do Pe. Fabio Rosini, apresenta um diagnóstico do que acontece dentro de nós e abre um caminho concreto de combate.
O objetivo deste artigo é simples:
1. Ajudar você a dar nome a um problema espiritual que provavelmente já vive, mas talvez nunca tenha identificado como tal.
2. Oferecer orientações práticas, realistas e exigentes, para começar a enfrentar essa batalha interior, não só com esforço psicológico ou força de vontade.
Não vamos ficar na teoria distante. Vamos falar de você, da maneira como pensa, das histórias que passam na sua cabeça quando ninguém está olhando.
1. O erro que cansa, adoece e não converte ninguém
O ponto de partida de Pe. Fabio Rosini é incômodo, mas libertador: a maior parte de nós combate o mal do jeito errado.
O caminho mais comum é este: você identifica um vício — impureza, ira, gula, comparação constante, ressentimento — e tenta detê-lo na marra. Faz promessas, cria metas rígidas, multiplica pequenas penitências, estabelece “nunca mais”. Em resumo: coloca o vício numa jaula e passa a vida vigiando a jaula.
O resultado?
“Tensão permanente”, “infelicidade”, “castração – se não a neurose” e uma série de psicopatologias possíveis, escreve o autor. Ele descreve bem essa armadilha: o vício continua vivo, dentro de você, só que agora acorrentado pela sua vontade cansada. Você passa a se relacionar consigo mesmo como um carcereiro frustrado.
Pe. Fabio aponta o núcleo do problema: “Se as coisas fossem assim, quem me salvaria não seria Jesus Cristo, mas o meu esforço.”¹
Na prática espiritual, isso tem um nome antigo: farisaísmo. Uma vida fundada mais no controle que na graça; mais na aparência de ordem que na verdadeira reconciliação interior. Não é à toa que ele cita Emmanuel Mounier, falando do “hemiplégico da virtude”: aquele que parece virtuoso, mas está dividido ao meio, paralisado de um lado, rígido do outro.
O problema não é querer vencer o vício. O problema é querer fazê-lo atacando apenas as consequências, sem tocar a raiz. É achar que basta mais força de vontade, mais regra, mais “não posso”.
E qual é a raiz?
Os pensamentos.
2. Antes do vício, o pensamento: a visão de Evágrio Pôntico
Muito antes de São Gregório Magno organizar os sete pecados capitais, os monges do deserto — especialmente Evágrio Pôntico — olhavam para o mal a partir de outro ângulo: não apenas pelos atos, mas pelos pensamentos que os precedem.
Evágrio chama esses pensamentos de loghismói. Segundo a experiência desses monges, “todo o mal vinha... dos pensamentos”.² É uma afirmação forte, mas extremamente concreta: nenhum pecado nasce do nada. Antes de se tornar ação, o mal faz uma longa viagem interior.
São Gregório Magno, lembra Pe. Fabio, organizou os vícios capitais como uma classificação — “não uma solução”³. Ele nos ajuda a dar nome às consequências. Já Evágrio abre a porta da origem: como o mal entra, se insinua, seduz, altera a nossa leitura da realidade.
É aí que o livro A arte do bom combate toma forma: não como um catálogo de pecados, mas como um mapa de combate. O objetivo não é “radiografar o carcereiro, o demônio”, mas “deixar-nos conduzir à vida pelo libertador, Jesus Cristo”.⁴
A questão é direta: se você não aprender a reconhecer os pensamentos que preparam o pecado, viverá eternamente em regime de contenção, mas não de libertação. Exteriormente católico, interiormente escravo.
3. O problema espiritual desconhecido por muitos: portas escancaradas ao engano
O capítulo “As portas do engano” é uma espécie de raio-X das nossas brechas espirituais. Antes de falar dos oito loghismói em si, Pe. Fabio identifica atitudes de fundo que tornam a tentação eficaz. Não são necessariamente pecados graves, mas são ambientes onde o mal respira com facilidade.
Ele destaca, entre outras, quatro portas de entrada:
A. Superficialidade
B. Omissão (esquecimento espiritual)
C. Representações (imagens internas falsas)
D. Contaminação de pensamentos (querer conciliar bem e mal)
Essas quatro já explicam muito do que você vive hoje.
A. Superficialidade: viver longe do próprio coração
Os Padres do Deserto chamavam isso de negligência, améleia: o hábito de permanecer nas bordas da própria consciência. Um viver sempre para fora, sempre reagindo, sempre correndo, nunca descendo ao centro.
“Quanto mais alguém se dirige ao próprio centro nobre, mais perde força a tentação.”⁵
Na prática, como essa superficialidade aparece?
– Você sente ansiedade, mas não se pergunta o que está por trás.
– Explode de raiva, mas não identifica o pensamento que alimentou aquela fúria.
– Sente inveja, mas transforma em comentário irônico “inofensivo”.
– Vive numa sucessão de reações, sem uma real pausa de exame e verdade.
O pensamento enganador “adora gerar reações sem reflexão, como ansiedade, pressa e vários tipos de atitudes congestionadas”.⁶ Uma mente sempre em modo “resposta rápida” é uma mente fácil de manipular.
A superficialidade acaba se tornando um vício invisível: você se acostuma a considerar verdadeiras “análises insuficientes”, dá “muito crédito aos humores, às sensações sem profundidade e às ânsias correspondentes”.⁷ E, sem perceber, cria um filtro quase permanente contra tudo que aprofunda: silêncio, exame, correção fraterna, direção espiritual, leitura exigente.
Conselho prático imediato:
– Reserve diariamente 5 a 10 minutos sem tela, sem música, sem livro. Só você diante de Deus, revisando o dia. Pergunte: “O que eu pensei quando fiz isso? O que havia por trás daquela reação?” O objetivo não é remoer culpas, é começar a perceber o fio dos pensamentos que o movem.
Sem esse primeiro passo, qualquer combate aos vícios será ineficaz.
B. O esquecimento espiritual: quando a omissão abre espaço para qualquer paixão
Os monges chamavam a omissão interior de “esquecimento”. Não um simples lapso de memória, mas a escolha — quase sempre inconsciente — de excluir da consciência partes da realidade que nos incomodam.
Eles chegam a dizer: “O esquecimento é a raiz de todos os males”⁸; e explicam: do esquecimento nasce a negligência, da negligência a cobiça, e disso vem a queda. Se você esquece o bem — a verdade, as exigências de conversão, aquilo que Deus já lhe mostrou — começa a descuidar. E o vazio deixado por esse bem omitido não fica neutro: é ocupado por desejos desordenados, ansiedades, paixões.
O mecanismo é mais comum do que parece:
– Você “esquece” as suas vulnerabilidades: aquele ponto onde sempre cai. – “Esquece” as exigências da caridade, enquanto se concentra em práticas espirituais. – “Esquece” que já fez determinada experiência com Deus e volta a agir como se nunca tivesse sido iluminado.
Pe. Fabio alerta para algo muito concreto: o esquecimento dos próprios pontos fracos. O demônio, diz ele, às vezes nos permite “ganhar terreno em alguma batalha espiritual” justamente para que fiquemos felizes com nosso “progresso” e retiremos “as sentinelas da porta da cidade”.⁹
Enquanto você se orgulha de um avanço específico, negligencia as outras frentes, e por ali o inimigo entra com facilidade.
Conselho prático:
– Faça uma pequena “lista de vulnerabilidades” diante de Deus: onde, de fato, você mais cai? Em que situações típicas? Guarde essa lista (de maneira discreta) e volte a ela com frequência na oração. Lembre conscientemente onde você é fraco; isso não é pessimismo, é vigilância.
– Examine também os “esquecimentos de caridade”: relações quebradas que você já normalizou, ofensas que deixou de levar a sério. “Sem caridade fraterna, sem querer-se bem, sem reconciliar-se, o resto não passa de conversa fiada.”¹⁰
Aqui, a exigência é direta: não se iluda com disciplina espiritual se você trata como “normal” sobreviver com vínculos rompidos.
C. Representações: quando a imaginação nos separa da realidade (e das pessoas)
Um dos pontos mais fortes do livro é o tratamento que Pe. Fabio dá ao tema das imagens mentais, as “representações” (noémata). Evágrio já alertava: muitas tentações começam na imaginação, não nos fatos.
O problema não é ter imaginação. É quando ela passa a atribuir à realidade “dados autóctones, ou seja, produzidos por mim”¹¹ — aquilo que hoje chamamos de projeções. Você carrega dores, medos, traumas e começa a enxergar tudo a partir deles.
Resultado: a imagem que você cria torna-se “mais verdadeira que a realidade”.¹² Você passa a viver cercado não por pessoas, mas por versões delas fabricadas pela sua sensibilidade ferida.
Pe. Fabio conecta isso diretamente com o mandamento: “Não farás para ti escultura, nem figura alguma...” (Ex 20,4). Fazer para si uma imagem é construir um ídolo interno, que passa a comandar a leitura de tudo: “as imagens interiores e as convicções que produzem são fontes de grandes destruições relacionais.”¹³
Um sintoma clássico: a afeição desordenada. Você se aproxima das coisas e das pessoas não com base na verdade dos fatos, mas num movimento interno de simpatia ou antipatia. O outro passa a ser apenas o suporte das suas projeções.
Ele dá um critério precioso: se você se sente repetidamente “excluído, incompreendido, rejeitado” em ambientes diferentes, com pessoas distintas, é hora de perguntar-se se não está preso “no loop de um dos nossos noémata”.¹⁴ Talvez o padrão esteja mais em você do que fora.
Conselhos práticos concretos:
Desconfie de frases internas absolutas: “Sempre fazem isso comigo”, “Ninguém me entende”, “Ele é assim”, “Ela é exatamente desse jeito”. Geralmente há omissão de dados aí. Volte aos fatos: o que exatamente aconteceu? O que foi dito? O que eu estou acrescentando por minha conta?
Na próxima discussão, faça este exercício silencioso: “O que eu vejo nesta pessoa agora é ela ou é a imagem que construí dela?” Não responda rápido. A graça atua nessa hesitação honesta.
Em direção espiritual ou confissão, não fale apenas do que você fez, mas do que você pensou — das narrativas internas que você alimenta sobre Deus, sobre si mesmo, sobre os outros. A verdadeira conversão passa também por aí.
D. Contaminação: tentar servir a dois senhores dentro da própria cabeça
Por fim, Pe. Fabio fala da “contaminação dos pensamentos”: a ilusão de poder fazer coexistir, de maneira estável, “o amor com a mentira”, “o que é saudável com o que está infectado”.¹⁵
É o católico que aceita Jesus, mas guarda “um pedaço de inferno no bolso”, como dizia o Pe. Fabio Pieroni.¹⁶ Não se trata das quedas que todos temos, mas da recusa em cortar certas cumplicidades interiores: pequenas desonestidades aceitas “por uma boa causa”, mágoas cultivadas em meio à oração, sensualidades toleradas ao lado de uma vida sacramental regular.
“Não se entra no céu com um pedaço de inferno no bolso.” Isso não é moralismo; é simples lógica espiritual. É como um cirurgião que resolve deixar “um pedaço do carcinoma” no paciente. Não funciona.
O Catecismo é taxativo: “não é lícito fazer o mal para que dele derive um bem”¹⁷. O mal não é ferramenta justificável a serviço de um projeto maior. Numa linguagem bem concreta, Pe. Fabio exemplifica: evangelizar usando um dado falso e, mesmo depois de saber da falsidade, não corrigi-lo “porque funcionou”. A partir desse momento, “quer me descubram ou não, eu me tornei dele”¹⁸ — isto é, me tornei cúmplice do maligno.
Conselhos práticos:
– Identifique “pequenos acordos” que você faz com o mal: aquela fofoca “só dessa vez”, a pequena fraude “porque todo mundo faz”, a mensagem imprópria “porque ninguém vai ver”, a mentira parcial “para evitar problemas”. Não relativize por serem pequenas. Pergunte objetivamente: “Estou usando o mal como ferramenta?”
– Onde houver contaminação clara, a primeira resposta não é analítica, é decisiva: cortar. Voltar atrás, corrigir a informação falsa, pedir perdão, excluir o conteúdo, romper a situação ambígua. A dor de circuncidar o coração faz parte do processo de unificação interior.
Aqui a exigência é alta, mas profundamente libertadora: não se constrói uma vida espiritual madura convivendo pacificamente com “moscas mortas no perfume” (cf. Ecl 10,1).
4. Três passos concretos para começar hoje o combate interior
Talvez você se reconheça em vários pontos. Esse é um ótimo sinal: significa que as luzes acenderam. Mas reconhecer não basta; é preciso iniciar um caminho. A espiritualidade católica não é um diagnóstico brilhante sem tratamento.
A partir das indicações de Pe. Fabio Rosini, seguem três passos práticos, realistas, para começar:
Reintroduza o exame de consciência como ato de inteligência. Cinco a dez minutos diários, de preferência à noite. Não apenas: “Pequei? Em quê?”. Mas: “Quais pensamentos passaram por mim hoje? O que eu aceitei sem questionar? Onde fui superficial, onde omiti, onde fantasiei, onde tolerei contaminações?”. Esse olhar lúcido é caridade consigo mesmo.
Repare conscientemente as omissões de caridade. Pense em uma relação ferida que você normalizou. Não espere que o sentimento mude. Dê um passo objetivo: uma mensagem honesta, um pedido de desculpas, uma tentativa de conversa, uma oração fiel por essa pessoa. A vida espiritual não cresce sobre escombros afetivos não enfrentados.
Procure acompanhamento espiritual que toque nos pensamentos, não apenas nos atos. Se você já se confessa regularmente, comece a levar também os padrões de pensamento: “Padre, eu tenho alimentado tal narrativa sobre X”, “Costumo interpretar tudo como perseguição”, “Guardo esta imagem de Deus em mim...”. A graça age com força quando encontra verdade bem dita.
5. Um livro para quem está cansado de viver em modo “contenção”
A arte do bom combate não é um tratado académico de espiritualidade, muito menos um manual de autoajuda. É um caminho de libertação real — exigente, lúcido, profundamente católico. Pe. Fabio não se perde em análise de pecado por fascínio mórbido; ele mesmo adverte que não está interessado em “dissecar o pecado”, mas em “entender como podemos ser libertos dele”.¹⁹
O foco é a “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”: uma liberdade que não é grito vazio, mas fruto de um combate travado lá onde tudo começa — na mente, no coração, nesse lugar secreto onde Deus fala e o inimigo sussurra.
Se você sente que vive dividido, que repete padrões que não entende, que se esforça muito e colhe pouco fruto interior, este livro é um passo de seriedade. Não porque trará soluções mágicas, mas porque o colocará diante da verdade do seu combate, com as armas certas e o aliado certo.
Afinal, o cristianismo não é uma ginástica de autocontrole. É um caminho de filiação: não “parecer justo”, mas nascer do Bem, como lembra Pe. Fabio ao comentar o contraste entre os fariseus e Jesus.²⁰
A pergunta que fica é simples e direta: você quer continuar vigiando jaulas, ou aprender a fechar as portas por onde o inimigo entra?
¹ Fabio Rosini, Os Oito Pensamentos Malignos, Cap. 1, p. 21.
² Idem, p. 25.
³ Idem, p. 22.
⁴ Idem, p. 24-25.
⁵ Idem, Cap. 3, p. 39-40.
⁶ Idem, p. 40.
⁷ Idem, p. 40.
⁸ Idem, p. 42.
⁹ Idem, p. 43.
¹⁰ Idem, p. 45.
¹¹ Idem, p. 45.
¹² Idem, p. 46.
¹³ Idem, p. 46.
¹⁴ Idem, p. 47.
¹⁵ Idem, p. 50-51.
¹⁶ Idem, p. 50.
¹⁷ Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n. 368, citado em Rosini, p. 52.
¹⁸ Rosini, p. 51-52. ¹⁹ Idem, p. 24. ²⁰ Idem, p. 23.