Existe uma palavra que provoca arrepios. Uma palavra que, para muitos, evoca imagens de repressão, frustração e uma vida cinzenta. Essa palavra é castidade.

Quando a ouvimos, pensamos imediatamente naquilo que ela não é: não fazer isto, não sentir aquilo, não viver plenamente. A cultura contemporânea ensinou-nos a desconfiar dela como se fosse um inimigo da liberdade, um obstáculo à realização pessoal, uma relíquia de tempos obscuros que felizmente ficaram para trás.

Mas e se estivéssemos completamente enganados?

O cadáver que não queremos enterrar

Dom Erik Varden, bispo e monge trapista, começa seu livro Castidade: A Reconciliação dos Sentidos com uma observação incômoda: a castidade tornou-se "uma palavra para antiquários"¹. Descreve algo que associamos a uma era passada, a um conjunto de regras que sufocavam a vida em vez de a promover.

E não faltam razões para essa desconfiança. Os escândalos de abuso sexual cometidos por pessoas que fizeram votos de castidade lançaram uma sombra terrível sobre o próprio conceito. Parece que a castidade, longe de conduzir à integridade, produziu monstros.

A tentação é simples: enterrar definitivamente essa noção, esquecê-la, seguir em frente. Afinal, vivemos numa cultura que fala abertamente de sexo, que o celebra, que o considera essencial para o desenvolvimento psicológico saudável. Por que razão precisaríamos de uma virtude que parece estar em guerra com a nossa natureza?

A armadilha da linguagem

O problema começa com um mal-entendido fundamental sobre o que a palavra castidade realmente significa.

Na cultura contemporânea, reduzimos a castidade a uma simples negação: não ter relações sexuais, não sentir desejo, não ceder aos impulsos. É uma definição puramente negativa, que transforma a virtude num conjunto de interdições.

Varden mostra que essa compreensão empobrecida é uma traição ao sentido original da palavra. Castus, em latim, está relacionado com puro — não no sentido de ausência, mas de integridade. Os antigos gramáticos associavam castus a integer, observando que o termo era usado "em relação à própria pessoa" e indicava uma "personalidade cujas partes estão reunidas em um todo harmônico"².

A castidade, portanto, não é a mortificação dos sentidos, mas a sua reconciliação. Não é negar uma parte de si mesmo, mas integrar todas as dimensões da pessoa — corpo, mente, alma — numa unidade coerente.

O mito da libertação sexual

Aqui tocamos num ponto nevrálgico da nossa cultura.

A partir dos anos 1960, o Ocidente abraçou uma narrativa de libertação sexual. Deitaram-se abaixo as velhas inibições vitorianas, celebrou-se a expressão desinibida do desejo, proclamou-se que a repressão sexual era a fonte de todos os males psicológicos.

Meio século depois, temos condições de fazer um balanço. Tornámo-nos mais livres? Mais integrados? Mais felizes?

A resposta não é tão simples quanto gostaríamos. A pornografia tornou-se um facto inquestionável da adolescência, deixando feridas que cicatrizam lentamente na memória. O sexo, liberto dos quartos para os espaços públicos, parece ter perdido profundidade em vez de a ganhar. A ansiedade em torno da identidade sexual e da performance atingiu níveis sem precedentes.

Varden confessa que ele próprio foi, durante anos, um "giróvago" — termo que São Bento usava para descrever os monges vagabundos, sem rumo nem destino. "O poço ao redor do qual eu arrastava meus pés era seco", escreve. "A sua narrativa morosamente bidimensional da vida e do amor era apenas um monte de ossos secos, mas eu continuava dando-lhe voltas, atado a um cabresto"³.

A liberdade sexual prometida revelou-se, tantas vezes, apenas outra forma de escravidão.

O que realmente está em jogo

Se a castidade fosse apenas uma questão de comportamento sexual, não mereceria tanta atenção. Mas está em jogo algo muito mais profundo: a própria compreensão do que significa ser humano.

A visão moderna tende a fragmentar a pessoa. Existe o corpo, com os seus impulsos e necessidades. Existe a mente, com os seus pensamentos e projetos. Existe a dimensão afetiva, com os seus desejos e medos. Estas dimensões convivem, mas raramente dialogam verdadeiramente entre si.

O resultado é uma vida dividida. Fazemos coisas com o corpo que a mente desaprova. Alimentamos desejos que contradizem os nossos valores declarados. Vivemos numa tensão permanente, como se fôssemos múltiplas pessoas habitando o mesmo corpo, sem nunca chegarmos a um acordo.

A castidade oferece outra possibilidade: a de uma vida unificada, onde todas as dimensões da pessoa se orientam para o mesmo fim. Não se trata de negar o corpo ou os afetos, mas de os ordenar — de lhes dar uma direção, um sentido, uma finalidade que transcende a mera satisfação imediata.

A pergunta de Norma

Na ópera de Bellini, a sacerdotisa Norma canta a famosa ária Casta Diva, invocando a lua casta. É um momento de beleza arrebatadora — e de profunda ironia.

Porque Norma, apesar do seu voto de castidade, mantém uma relação secreta com o inimigo do seu povo, com quem teve dois filhos escondidos. A paz que invoca não é desinteressada: é uma tentativa desesperada de proteger o amante. O seu coração está dividido entre a vocação pública e a paixão privada. Ela é, nas palavras de Varden, "uma perjura e uma impostora" — e "uma alma atormentada e desesperadamente infeliz".

A tragédia de Norma ilustra o que acontece quando tentamos viver sem integridade: acabamos por não pertencer completamente a ninguém nem a nada. Nem à nossa vocação, nem aos nossos amores, nem sequer a nós mesmos.

Há uma personagem cristã na ópera: Clotilde, a ama dos filhos de Norma. Quando Norma lhe pergunta, em desespero: "O seu Deus cura corações doentes de amor?", Clotilde responde com um suspiro: "Apazigua-os".

Apaziguamento. É tudo o que o cristianismo tem para oferecer? Uma resignação melancólica, uma aceitação passiva do sofrimento, uma tristeza espiritualizada?

Se for esse o caso, Norma tem razão em desesperar.

Para além do apaziguamento

A grande contribuição do livro de Varden está em recuperar uma visão cristã da castidade que vai muito além dessa espiritualidade anestesiada.

A castidade cristã não é uma questão de suprimir o desejo até que ele se extinga. É uma questão de educar o desejo, de lhe dar forma, de o orientar para a plenitude. Como escreve São Pedro: "Em obediência à verdade, tendes purificado as vossas almas para praticardes um amor fraterno sincero. Amai-vos, pois, uns aos outros, ardentemente e do fundo do coração."

Repare-se na linguagem: ardentemente, do fundo do coração. Não há aqui apaziguamento. Há intensidade, há fogo, há vida.

A tradição cristã sempre compreendeu que o ser humano é habitado por paixões poderosas — e que essas paixões não são, em si mesmas, más. São energia, são força vital, são a matéria-prima da santidade. O problema não está em senti-las, mas em deixar que nos governem sem ordem nem propósito.

A castidade é a virtude que permite às paixões florescerem sem nos destruírem. É a estrutura que sustenta a trepadeira para que ela possa crescer em direção à luz, em vez de apodrecer no chão.

Uma palavra para o nosso tempo

Vivemos numa época estranha. Nunca se falou tanto de sexo e nunca se compreendeu tão pouco o que significa viver uma sexualidade integrada e livre. Nunca se celebrou tanto a autenticidade e nunca as pessoas estiveram tão divididas interiormente.

A castidade — entendida corretamente — não é uma resposta reacionária a esta situação. É uma resposta humana. Porque a castidade não se opõe à natureza humana; pelo contrário, ajuda-a a realizar-se plenamente.

Não se trata de um código de comportamento imposto de fora. Trata-se de uma sabedoria sobre como viver bem, sobre como reconciliar as diferentes dimensões do nosso ser, sobre como amar de forma a não nos destruirmos nem destruirmos os outros.

A nossa cultura precisa urgentemente desta sabedoria. Mas para a recebermos, temos de nos libertar primeiro das caricaturas que criámos. Temos de estar dispostos a olhar de novo para uma palavra que julgávamos morta — e descobrir que, afinal, pode estar cheia de vida.

A castidade não é o inimigo da liberdade. É, talvez, a sua condição de possibilidade. Porque só quem está inteiro pode verdadeiramente escolher. Só quem se possui pode verdadeiramente dar-se. Só quem reconciliou os seus sentidos pode amar sem reservas.

 


 

Notas:

¹ Erik Varden, Castidade: A Reconciliação dos Sentidos (São Paulo: Cultor de Livros, 2024), p. 11.

² Ibid., p. 17.

³ Ibid., p. 14-15.